Vozes Latinas em Mariana

13/07/2018 às 14h15

Andando pelo centro histórico der Mariana não é difícil encontrar palavras escrita em Latim, geralmente, as palavras ou frases aparecem em emblemas ou símbolos de instituições. Nas fachadas das Igrejas e capelas, em prédios públicos, chafarizes, pontes ou em cemitérios. Muitas das vezes são pouco percebidas, mas nos mostram a importância do Latim no passado de nossa cidade e um sistema muito eficiente de comunicação usando a linguagem a arte da cantaria em pedra e da pintura.

Provavelmente, estas inscrições, sirvam para explicar as passagens bíblicas, glorificar um feito histórico ou mesmo marcar a data de um monumento. Facilmente podemos observar então, que o Latim está muito vivo em nosso cotidiano, seja em qual for à relação comunicativa.

A língua morta o latim não tem nada. Vejam, por exemplo, quantas expressões são usadas em Direito. Quem nunca ouviu falar de habeas corpus? De alibi? De data venia? Quem nunca mandou um curriculum vitae? Quem nunca ouviu falar de renda per capita? Ou ouviu que alguém é doutor honoris causa? Ora, isso também é latim. Essa antiga língua de Roma está nas tecnologias mais modernas, está na fecundação in vitro.. Mesmo muitas palavras importadas do inglês remontam ao latim: na Informática usa-se o verbo deletar, do inglês to delete, que vem, por sua vez, do verbo deleo em latim, que significa “destruir”.

O saber latim facilita na compreensão de muitos termos presentes em textos científicos, teológicos, filosóficos e direito, além de ser o ponto de partida para muitas línguas; como, por exemplo, português, italiano, francês, romeno, espanhol, dentre outros; que são idiomas que tem sua origem no latim, porém, além destes, muitas outras línguas possuem termos provenientes de tal. Das palavras que nosso país e Portugal falam 80% são de procedência latina.

A História:

O latim integra as línguas itálicas e seu alfabeto baseia-se no alfabeto itálico antigo, derivado do alfabeto grego. No século IX a.C. ou VIII a.C., o latim foi trazido para a península Itálica pelos migrantes latinos, que se fixaram numa região que recebeu o nome de Lácio, em torno do rio Tibre, onde a civilização romana viria a desenvolver-se.

Os falantes do latim eram chamados latinos e isso se deve ao fato de eles morarem na antiga região italiana de Lácio (Latium em latim). Além desta língua, outras ainda eram faladas naquela época e naquele local, como, por exemplo, o grego; porém, como o foco aqui é o latim, vale ressaltar que este era dividido em sermourbanus e sermovulgaris, respectivamente usados pela classe alta e baixa.

O Latim Popular – Vulgar não se apegava a regras gramaticais e era utilizado pelo povo e, principalmente, pelos soldados romanos. Já o Latim Clássico era uma língua erudita e estava presente entre as pessoas letradas. Como o primeiro era falado pela massa, foi ele que se disseminou e se deixava influenciar pela língua dos que o adotavam; até porque as classes inferiores da Sociedade Romana eram bastante numerosas. Enquanto o segundo manteve-se estático, tendo em vista que escritores e outros poucos usufruíam deste, pois fugia do cotidiano da maioria.

Além destes dois, ainda existe uma terceira classificação, que é o Latim Eclesiástico, ou seja, a parte cristã da Língua Latina, aquela que reflete o período de expansão do Cristianismo no Império Romano. Santo Agostinho foi e ainda é um grande nome daqueles tempos e que representa tal fase.

Concluindo as variações do Latim, este não pode ser acrescido de dialetos, tendo em vista que suas raízes foram acrescidas de diferenças linguísticas populares e particulares de outras línguas e, a partir destas misturas e adições, outros idiomas autônomos foram criados e transformados.

Quanto à sua evolução, a Língua Latina passou por muitas mudanças. Iniciando pelo Latim pré-histórico, que vem antes dos registros escritos. Seguido pelo Latim proto-histórico, que constava nos primeiros documentos da língua. Logo vem o Latim arcaico, que não tem um vocabulário muito extenso e esteve presente em alguns textos literários. O Latim Clássico é “pai” de grandes obras literárias e sua língua é bastante erudita. O Latim Vulgar foi o falado pela maioria, ou seja, pelas classes mais baixas. Finalizando com o Latim pós-clássico, uma junção do quarto e quinto.

A língua latina ou latim é uma antiga língua indo-europeia do ramo itálico originalmente falada no Lácio, a região do entorno da cidade de Roma. Foi amplamente difundida, especialmente na Europa Ocidental, como a língua oficial da República Romana, do Império Romano e, após a conversão deste último ao cristianismo, da Igreja Católica Romana. Através da Igreja Católica, tornou-se a língua dos acadêmicos e filósofos europeus medievais. Por ser uma língua altamente flexiva e sintética, a sua sintaxe (ordem das palavras) é, em alguma medida, variável, se comparada com a de idiomas analíticos como o português, embora em prosa os romanos tendessem a preferir a ordem SOB (Sujeito, Objeto e Verbo). A sintaxe é indicada por uma estrutura de afixos ligados a temas. O alfabeto latino, derivado dos alfabetos etrusco e grego (por sua vez, derivados do alfabeto fenício), continua a ser o mais amplamente usado no mundo.

O Projeto:

O Prof. Dr. Aldo Eustáquio Assir sobral (ex-professor da Universidade Federal de Ouro Preto) desenvolveu projeto “ Vozes Latinas dos Monumentos Sacros de Mariana e Ouro Preto”. Neste trabalho o professor catalogou  diversas epígrafes (citação de um pensamento, de uma frase ou de um provérbio em Latim) que aparecem em monumentos de nossa cidade.

A pesquisa do professor é inédita, pois até apresente data, não foram encontradas obras publicadas sobre o assunto, no sentido de coleta, catalogação e sistematização do texto epigráficos sobre qualquer enfoque: histórico, religioso, artístico ou literário. A pesquisa inclui tanto as inscrições em monumentos sacros quanto civis.

As inscrições podem ser classificadas, segundo o professor, em: Inscrições em monumentos religiosos igrejas e oratórios (parte interna de altares, púlpitos, forros, sacristias e outros), na parte externa de edifícios (frontispícios, fachadas, inscrições tumulares em igrejas e capelas e cemitérios); Inscrições em Monumentos civis (fachadas, de instituições civis e educacionais, chafarizes, museus, pontes, placas comemorativas, brasões e objetos diversos).

Foi observado pelo pesquisador que as inscrições religiosas são mensagens que aparecem pintadas ou esculpidas nos nichos dos altares, ornamentos da pintura do teto, nos púlpitos, frontispícios, sacristias e cemitérios. São cheias de esplendor, ricas em textos de recitação dos Salmos que evocam a fé, o amor e a esperança.

”Estes textos adornam com muita graça e vigor o espaço que lhes é reservado e integram um conjunto harmonioso, ressaltando –lhe a qualidade estética pela mensagem que o acompanha. A Composição dos textos latinos sacros é recheada de Antífonas, Versículos, Hinos e outras modalidades litúrgica” explica  professor Aldo Sobral.

A preservação  deste material é muito importante, pois muita registro , devido ao tempo, estão apagando ou e estado de deterioração do suporte ( pedra , madeira,  do coloração da pintura), como  o caso específico das pinturas da Igreja de Nossa Senhora Rainha dos Anjos Confraria de São Francisco dos Cordões que não há condições de leitura das inscrições devido ao estado da pintura.

A catalogação, registro e tradução já foram feita, para o ano de 2018 o professor Aldo Sobral pretende lançar um livro ilustrado e explicativo sobre o tema.

”Trazer as informações destas epigramas e traduzir, corretamente, esses textos para a população de Mariana e Minas é mostrar, mais umas das riquezas da cultura Mineira” finaliza o Prof . Aldo Sobral.

Tipos de Epígrafes Encontrados:

A Epigrafia latina é um ramo da Epigrafia que estuda as inscrições romanas em materiais mais duráveis como pedra, metal, argila e outras escritas na língua latina.

Existem quatro tipos de epígrafes: as epígrafes funerárias, dedicadas aos mortos; as epígrafes votivas ou religiosas, dedicadas aos deuses; as epígrafes honoríficas, dedicadas a uma figura importante, como um imperador, por exemplo; e por último as epígrafes monumentais, que estão presentes em monumentos. Essas quatro categorias podem estar juntas em uma mesma epígrafe, como por exemplo, uma epígrafe que é monumental e ao mesmo tempo honorífica: uma epígrafe presente em um monumento de algum imperador cujo conteúdo é dedicado especificamente a ele se torna também uma epígrafe honorífica.

Epígrafes Funerárias:

São as epígrafes mais abundantes. Os principais dados geralmente presentes nas inscrições funerárias são a invocação dos deuses manes; seguido da identificação do morto junto com a idade em que o dedicado veio a falecer; em seguida a identificação dos dedicantes seguida de "F(aciendum) C(uravit ou uraverunt)", que significa "mandou ou mandaram fazer"; por fim encontra-se as inscrições "H. S. E." (aqui jaz) (terra lhe seja leve).

Em Mariana existem várias, principalmente, na cripta dos Bispos e Arcebispos na Sé de Mariana, na Capela de Nossa Senhora da Boa Morte e em outras Igrejas e capelas.

Epigrafes honoríficas:

Os elementos encontrados nas epígrafes honoríficas são a identificação do dedicado acompanhado das inscrições dos cargos em que ocupou, podendo ou não possuir elogios sobre o seu trabalho, em seguida o motivo da homenagem, também há a identificação dos dedicantes e de que forma obtiveram fundos para a construção da epígrafe; no final pode haver ou não uma inscrição que mostra a intervenção direta das autoridades municipais "D(ecreto) D(ecurionum)", ou, pode conter as seguintes inscrições "H(onore) C(ontentus) I(mpensam) R(emisit)" que demonstram o contentamento do homenageado, levando-o a pagar as despesas da construção da epígrafe.

Um exemplo é a pedra fundamental do Seminário São José de Mariana. Este epífrafe, que está na parte externa do prédio do Seminário, feito em esteatito ( pedra sabão) possui um enigma. O Padre Pedro Sarnell usou da matemática e de muita habilidade lingüística para inserir a data pedra fundamental do seminário em no texto em Latim. Os numerais romanos são ,também, letras, assim o padre Sarnnel , sutilmente, colocou algumas letras maiores que as outras. Separando somente as letras que são proporcionalmente maiores, podemos achar por duas vezes o número 1928, data da colocação da pedra fundamental.

Epígrafes Monumentais

Os elementos encontrados nesse tipo de epígrafe geralmente são as circunstâncias, as datas, as pessoas ligadas, e a divindade que estão homenageando na construção.

Heráldica:

A heráldica refere-se simultaneamente à ciência e à arte de descrever os brasões de armas ou escudos. Na Idade Média, principalmente na época da cavalaria, os escudos passaram a simbolizar famílias, dinastias, territórios e feudos, tanto na guerra como na paz. Mais tarde, as propriedades, palácios e objetos de família passaram a ostentar os brasões de seus senhores, como símbolo de poder, de nobreza, ou como mero distintivo, símbolo de identidade. Com essa última função passaram os brasões, a distinguir ordens religiosas, bispados, cidades e instituições.

Uma das partes do Brasão e a Divisa (Divisa: é o lema da entidade representada. É colocado num listel, sob o escudo). Um listel em heráldica é uma pequena bandeirola ou flâmula que se localiza por cima ou por baixo do escudo de um brasão de armas. Possui geralmente a cor branca, e contém dizeres chamados de grito de guerra ou grito de armas - uma palavra ou frase curta (interjeição) de incentivo ao combate ou à ação. Estes dizeres são muitas vezes escritos em latim.


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